13 de mar de 2008

Saiu na Zero Hora de 13/março/2008


Artigo
Novos pecados, velhas práticas, por Lícia Peres*

Há poucos dias, a Igreja Católica divulgou no Osservatore Romano, publicação oficial do Vaticano, um novo elenco de "pecados sociais," destacando, dentre outros, o que chamou de manipulação genética.
Ao meu ver, este anúncio tem um foco principal, o de frear o avanço científico que, ao descobrir o potencial contido no uso de células-tronco para a substituição de tecidos e órgãos, leva um novo alento à humanidade. É uma transformação sem precedentes.
No Brasil, a permissão para que sejam utilizadas as células-tronco embrionárias congeladas há pelo menos três anos, após longa espera, encontra-se em exame no Supremo Tribunal Federal. Trata-se de um tema de importância crucial cujo resultado, se concedida a autorização, representará uma revolução na medicina e a conseqüente elevação brasileira para um novo patamar no avanço científico em termos mundiais.
A presidente Ellen Gracie já adiantou seu voto favorável e deixou claro que já postergaram demais.O obscurantismo, as visões medievais, aquelas mesmas que condenaram Galileu e que queimaram mulheres e livros abrem mais uma guerra contra o progresso e tentam impedir a aprovação da lei. Em relação aos que sofrem e poderão ser beneficiados com o prosseguimento das pesquisas - sua única esperança - não há compaixão.E, de repente, elevaram o embrião a uma condição jamais vista, muito acima das vidas concretas.
As igrejas agora passaram também, sob orientação superior, a colocar nos altares reprodução de fetos em resina e, segundo o noticiário, exibem filmes assustadores. Apelação é pouco. Nova Cruzada à vista.
A cientista Mayana Zatz, uma das mais brilhantes pesquisadoras brasileiras, explica de forma acessível:"Quando o embrião humano está com quatro ou cinco dias depois da fertilização, é um conjuntinho de cem células, tão pequenino quanto o pontinho do i. A gente não enxerga essas células, a não ser aumentando cem vezes ao microscópio. Nessa fase, há uma capa externa de células, que irão formar as membranas embrionárias da placenta, e um bolinho de células internas. As células desse bolinho interno são as que chamamos de pluripotentes, porque são as que podem produzir todos os tecidos do nosso organismo".
"Nessa fase, ainda não se tem o feto. Existe simplesmente um bolinho de células que, de tão pequenas, você precisa aumentar muito ao microscópio para conseguir ver alguma coisa. Há algumas pessoas que acham que, então, já existe um fetinho com bracinho, perninha... Não. É simplesmente um amontoado de células que, até 14 dias, não tem nem resquício de sistema nervoso."
"Os embriões que estão congelados em clínicas de fertilização são aqueles que, ou já não têm bom aspecto e não serviriam para implantação, ou já estão congelados há tanto tempo, que, mesmo se fossem implantados num útero, as chances de se transformar em uma vida são mínimas, da ordem de 2% a 3%. Chamar isso de vida é um otimismo gigantesco. Eu creio que se pode falar, isto sim, num potencial muito pequeno de vida."
"É por isso que estamos lutando para que, ao invés de jogar esses embriões no lixo, nos permitam usá-los no laboratório, nos permitam aprender como podemos fazê-los se diferenciar nos tecidos que a gente precisa para salvar vidas, para curar doenças e, no futuro, fazer órgãos também."
"O que limita são crenças religiosas. Existem grupos religiosos - felizmente são a minoria - que acham que, no momento da fertilização, já se tem uma vida. É importante que se diga: isso não é verdade, porque em 70% dos casos, mesmo que ocorra a fertilização, não ocorre mais nada. Essa fertilização pára aí. Não ocorre a divisão do embrião e não se teria nem um blastócito."
Está aí a possibilidade de esses embriões contribuírem para uma vida nova, com qualidade, para um grande número de pessoas necessitadas. Uma nobre função para o que seria descartado.
Nas comemorações do Dia Internacional da Mulher, foi divulgado de forma bem-humorada e criativa o apelo: "Tirem seus Rosários de nossos Ovários". Sempre apreciadora do bom humor, creio, entretanto, ilusória a possibilidade de dissuadir tais grupos religiosos com qualquer argumento. Suas lideranças sabem muito bem que a matéria-prima com que sempre operaram é a vida e a morte. Uma nova concepção sobre estes temas poderá significar um outro entendimento, uma visão diferente de suas pregações, o que, certamente, não lhes convém. Combater o atraso é nosso dever e nossa salvação.
*Socióloga

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